Nós, músicos, artistas, produtores e consumidores de música da nossa cidade, costumamos evocar a entidade CENA quando nos referimos ao momento musical, seja na efervescência dos eventos ou na qualidade/quantidade dos trabalhos musicais produzidos perante um contexto. Em Teresina não é diferente. Quando reduzimos a parametrização do momento musical da cidade somente sobre a quantidade de bandas surgindo e a boa qualidade dos materiais produzidos, sempre evocamos a CENA, para entupi-la de adjetivos positivos e dizer que somos uma cidade em crescente ebulição cultural.  Poderíamos citar vários exemplos de bandas com materiais de muita qualidade lançados em 2018 e no início de 2019. Também já sabemos de outra enorme quantidade de músicos que estão prestes a lançar material inédito. Essa produção em escala quase industrial de boa música em nossa capital também nos traz a doce ilusão de uma cena underground forte. Não somos, não vivemos e sequer estamos perto disso.

Vivemos em nichos. As trocas de experiências entre esses nichos são praticamente nulas. Vez ou outra as diferentes “tribos” se encontram. Salvo em shows aleatórios, numa palestra, ou nas reuniões que buscam Editais junto a Secretaria Estadual de Cultura, as bandas teresinenses pouco conversam entre si. É coisa rara encontrar as figurinhas carimbadas em algum evento onde o amiguinho esteja tocando. Não é raro seu celular acabar com a memória de tanto flyer de evento que você recebe. Mas as bandas não se visitam. As bandas não se escutam. As bandas não circulam juntas. E quando isso acontece é porque tem dinheiro público envolvido, o que não deveria ser problema, mas passa a ser quando esse dinheiro parece ser a última tábua de salvação.

Como falar de Cena Underground forte quando a única coisa que eu conheço é a coisa que eu produzo? Como falar de ebulição de uma Cena quando eu só aceito fazer parte dela como artista e nunca como público? Como falar em Cena circulante quando só a Santíssima Trindade aparece nas fotos dos eventos mais descolados da cidade? Será que a Cena forte não consegue entregar mais que cinco bandas ou será que Cena só é considerada quando essas bandas estão presentes?

Temos ótimas produções, grandes artistas. Mas não temos Cena. Já tivemos. Mas me arrisco a dizer que jamais teremos novamente. 

Jairo Mouzzez