A Cianeto HC completa 10 anos nos presenteando com o excelente Sociedade das Marionetes. O disco é uma verdadeira polaroid dos dias loucos que vivemos, e a banda não parece se importar com o risco do disco parecer datado daqui a 10, 20 anos…

Com dois trabalhos já lançados (os EPs Decair e Estilhaços), a Cianeto HC sempre teve seu som calcado no hardcore dos anos 90 e com letras com forte teor politizado. Usando de muita ironia a banda questiona a falta de empatia com o próximo e a crescente força de fake news em tempos de pós verdades.

Apesar de ser uma produção “caseira” como eles mesmos afirmam, este é o trabalho mais bem produzido da Cianeto HC até agora.

Heitor é o responsável por todas as letras. E elas são, sem dúvida, um dos destaques do disco. O vocalista afirma que “resistir é ter coragem de ser aquilo que se diz. Estados autoritários, governos intransigentes sempre sempre cresceram exercitando o medo no âmago de seus súditos. Foi assim no antigo regime e é assim mesmo em supostos estados democráticos de direito. Sem provocar medo, tiranos não tem força nenhuma. São desmoralizados, impotentes”.

Furando fila. Tomando vantagem. Pela família. Eu digo sim à malandragem!” gritam em Imagem e Semelhança; “Me recuso a cair assim, como um castelo de areia. Pois é nesse tempo ruim, que a minha coragem incendeia…“, afirma a belíssima Castelos de Areia; e em Manual do Coxinha Moderno: “Lambe a bota de um milico miserável. Toma banho com um pato inflável. O seu Deus só salva mão aberta, ai de você se não deixar oferta!“. 

A banda traz todas essas mensagens em meio ao seu hardcore noventista, com flertes com o Ska, momentos que trazem excelentes linhas de baixo do Juliano Bode, também responsável pela arte da capa e pela gravação, mixagem, masterização e toda produção do disco. Algumas boas guitarras ficaram meio perdidas em algumas músicas, com o som bem lá atrás, quase imperceptíveis. Uma pena, dariam uma riqueza ao som, principalmente em certos fraseados.

Segundo a banda o som da bateria foi uma busca estética por algo baseado nas bandas de hardcore dos anos 90! Confesso que não me vem à memória nenhum som de bateria abafado e sem brilho quando lembro de bandas dos anos 90. Mas se é uma questão estética, tudo bem. Contudo, acredito que teria ficado bem melhor com um som mais aberto e uma melhor definição.

Sociedade das Marionetes entra pro mesmo hall de Sangue no Olho do Obtus. Um clássico, que será discutido nos bancos acadêmicos num futuro não muito distante, por quem quiser entender melhor essa parte vergonhosa de nossa história.

*Rubens Lerneh