Quem busca um som de qualidade e antifascista, com diversificações de estilo nas letras, mas sempre com críticas ferozes aos tempos difíceis pelos quais o Brasil passa, tem a oportunidade de ouvir três discos muito bons lançados nos dois últimos meses.

O Surra, dos santistas Léo Mesquita, Victor Miranda e Guilherme Elias, trouxe através de suas cordas pesadas e sua batera furiosa o Escorrendo Pelo Ralo, que é o segundo full álbum da banda que está em atividade desde 2012. As letras trazem no decorrer do disco o tom ácido de crítica social, com o aprendizado das ruas, demonstrando como o conservadorismo, que outrora estava incubado na nossa sociedade, se apresenta em doses cavalares nas nossas relações sociais. Grande exemplo disso é a excelente “Bom dia Senhor”, que mostra em caráter quase autobiográfico, a realidade do trabalhador brasileiro perante aos seus abastados contratantes, que acreditam ter o poder de comprar, além do teu trabalho, tua alma. “Você possui filhos maravilhosos/Cristãos e Estudantes de Colégios bons/ Que custam por mês o que eu ganho em um ano/ Fazendo serviço pra reaça escroto” Esse é um disco para se ouvir do início ao fim, com volume no talo. A qualidade é excelente.

O segundo disco do qual falamos, que inclusive foi objeto de resenha anterior no nosso Blog, é o Sociedade das Marionetes, da banda Cianeto HC (Teresina/PI). A trupe formada por Heitor Matos/Juliano Bode/Lucas Barbosa e Diego, trouxe em suas letras um misto de protesto e comédia. O protesto, como podemos ver em Imagem e Semelhança Furando fila. Tomando vantagem. Pela família. Eu digo sim à malandragem!” advém das dicotomias pregadas pelos movimentos neo-fascistas brasileiros, que rogam a Deus pelo direito de matar. Mas o sarcasmo do Heitor, que é o autor de todas as letras do disco, trouxe também a comédia como opção da arte. Em Manual do Coxinha Moderno, no trecho onde escutamos Lambe a bota de um milico miserável. Toma banho com um pato inflável. O seu Deus só salva mão aberta, ai de você se não deixar oferta!“,  é impossível não construir mentalmente a imagem de seu abiguinho reaça tomando banho com um pato inflável.

Os capixabas do Dead Fish, já em quase 30 anos de estrada nos trouxeram “Ponto Cego”, que amarra um conceito quase sociológico da nossa era, onde a mídia demonizou a esquerda e acabou nos jogando frente ao autoritarismo de um governo assumidamente reacionário e todos os demais signos nefastos que se anexam ao termo anterior. Rodrigo Lima, Marcão Melloni e Ric Mastria  assumiram seu posicionamento político e social perante nossos acontecimentos. A poderosa “Sangue nas Mãos”, sintetiza em seu refrão o momento político do brasil “Motivo de Vergonha/Indignação/Os gritos que ecoam nas janelas/O lado certo da história/Não tem sangue nas mãos”

Se você leitor quer uma sequência de músicas antifascistas, que o façam refletir sobre o momento do país, crie uma playlist com esses três álbuns na íntegra e podem ouvir no repeat infinito que os três estão excelentes.

*Jairo Mouzzez