Queria escrever uma ode ao meu corpo nu, mas não sei se teria a poética suficiente para isso. Então, decidi que escreveria a ele como quem escreve a um amor que se deixou perder, mas que ainda se sente tanta falta. Porque, por muitos anos, eu me perdi do meu corpo, mesmo ele sendo MEU.

Querido corpo, sei que não fui a melhor pessoa para você nos últimos anos. Aprendi que NUNCA devia estar satisfeita com você. Emagreci tanto, tanto e mesmo assim não via beleza em você, em nós. No meio de tanta mudança de peso para mais e para menos, nada nunca bastava. Aprendi desde cedo que minhas celulites e estrias faziam de mim uma mulher em partes e NUNCA uma mulher suficiente. Eu devia odiar meu cabelo, minha altura insuficiente pra ser levada em conta, meus olhos, meus dentes, meus pés e mãos pequenos demais pra alguém da minha idade, nariz porque largo demais, todos os lugares em que gordura pudesse se acumular (mas coxa e bunda tá bom porque mulher tem que ter onde pegar, tem que ser gostosa). Me pergunto quantas partes de mim me eram permitidas amar? Eu, sinceramente, acho que nenhuma. Tudo podia ser melhorado. Por que não faz dieta? Tem um rostinho tão bonito, se emagrecesse ficaria melhor. E academia, já tentou? Ah, quando tiver mais velha (isso tinha 17 e mais velha era tipo 23) faz umas cirurgias que fica melhor. Sei que muita gente entende o que passamos, meu querido lar. Passei tanto tempo te odiando, me odiando, porque outras pessoas tão imperfeitas como nós dois sempre me disseram que eu não podia nos amar. 

Depois de mais de 20 anos nesse sentimento tão ruim, sei que tu és meu lar, meu templo sagrado e que só merece meu amor. E, claro, não tem sido fácil construir esse amor dia a dia. Sempre tem alguém apontando os quilos que preciso diminuir, no que eu deveria melhorar, no cabelo que eu deveria voltar a alisar/ deixar crescer, gente incomodada com minhas celulites, querendo que eu me incomode com minhas estrias que eu acolhi e que tanto amo. Esse ano tive que ouvir que devia fazer lipo, botar silicone, fazer rinoplastia, emagrecer. Só tô esperando o dia que vai chegar e perguntar porque não quero os ossos das minhas pernas pra “ganhar alguns centímetros”, afinal uma mulher que não tem nem UM METRO E SESSENTA e não usa salto??? Ah, ainda tem isso: além do ódio pelo meu corpo, eu deveria mudar meu estilo. Afinal, que mulher feminina (??) não usa salto, tem cabelo curto, não se comporta feito uma mocinha de propaganda, não senta com as pernas fechadas, usa bota, fala palavrão, pinta o cabelo quando bem entende, luta pelo que acha certo, não usa só saia e vestido, mostra a barriga mesmo não estando em forma, veste esse tipo de roupa que só combina com quem veste 36? Tem algo errado com essa garota, eles dizem. Vai sair de casa vestida assim? Mulher de suspensórios? Ela só pode estar de brincadeira. A lista de coisas que tenho que ouvir não é pequena. 

E sabe o que me deixa mais triste? Não é pensar que eu ouço isso todos os dias. É pensar que eu tô ainda no meio de uma “tabela” que me contempla. Visto 40/42 e ainda acho roupas que me sirvam (e muitas vezes já é meio difícil). Mas e as irmãs que vestem números a mais? Que não têm opções, representatividade? Que ouvem milhares, milhões de vezes em sua existência que são feias apenas por serem quem são, que têm seus corpos ridicularizados e suas existências resumidas a isso: um corpo fora de um padrão ridículo que nem devia existir. Chega dessas amarras sociais que nos impõem através de nossos corpos. Apesar de meu corpo ser meu lar, eu não sou só ele. Assim como nenhuma de nós é.  Somos mulheres e somos muito fortes. 

Obrigada por ser minha casa, meu lar, meu templo, querido corpo. Saiba que hoje eu já te amo e tenho certeza que a cada dia amarei mais.

Laíse Oliveira é fisioterapeuta, feminista, apaixonada por música piauiense e viciada em escrever desde os onze anos de idade.