Uma passagem relâmpago pela capital federal e eis que você tem oportunidade de conferir, depois de quase dezoito anos, um show da Plebe Rude, um dos maiores nomes ainda em atividade nesse cenário moribundo do Rock brasilis. Só quando a adrenalina baixou e tudo estava esquematizado fui reparar no 17 no nome do tal galpão, perdido no setor de oficinas da cidade satélite do Guará (que aliás tem uma cena digna de matéria mais aprofundada). O tal 17 seria apenas o óbvio, ou o dono seria algum apostador fiel do cachorro (daí lobo, guará, etc) nas hostes do bicho?

Enfim, o lugar era bem descolado. Espaços bem divididos pra vendas de comida, merchandising, jogos eletrônicos, ambiente lounge, tudo numa atmosfera de uma enorme oficina mecânica de motos. A banda de abertura, tocando cover de BRock, felizmente, eu perdi. Já cheguei com um DJ fazendo uma seleção à altura de hits dos anos 80 (uns bem obscuros até), uma plateia 80% de cinquentões, o resto um público mais novo, afinal existe uma renovação, por minima que seja. Um problema no sistema de cartões da casa levou o dono, pra lá de constrangido, a anunciar no microfone que as bicas de chopp (artesanais) ficariam liberadas, assim, nas palavras dele, as pessoas ali passariam longe de se sentirem frustradas; pelo contrário, teria “o show de suas vidas”. Será??

Mas vamos recapitular um pouco: A Plebe foi fundada em 1982 em Brasília por Phillipe Seabra (guitarra e voz), André “X” Muller (baixo), Jander “Ameba” Ribeiro (guitarra e voz) e Gutje Wortmann (bateria), e formou, junto com Legião Urbana e Capital Inicial, a santíssima trindade do rock cadango nos anos 1980. Seu disco de estreia, o mini LP “O Concreto Já Rachou” (1985), foi o primeiro disco de ouro das bandas de Brasília, e “Até Quando Esperar” é presença garantida em qualquer playlist de Brock que se preze. Após mais dois trabalhos pela gravadora EMI (“Nunca Fomos Tão Brasileiros”, de 1987; e “III”, de 1988) que não atingiram marcas alvissareiras de vendagem, e do independente “Mais Raiva do Que Medo” (1993, reduzida à dupla Phillipe e André X), a banda optou pelo famoso “hiato”. Em 2000, a Plebe atendeu ao convite do festival Porão do Rock para um show de reunião. De olho nas boas vendas de uma coletânea que reunia os três primeiros trabalhos da banda, a EMI acenou com um convite para um álbum ao vivo. Pra dar menos cara de caça-níqueis ao registro ao vivo “Enquanto a Trégua Não Vem”, a Plebe optou por encaixar versões de bandas correlatas e a inédita em disco “Voz do Brasil”. Novamente reduzidos ao duo Phillipe e André, recrutam Clemente Nascimento (Inocentes) para guitarra e segunda voz; e desde então lançaram e excursionaram com mais dois trabalhos de estúdio (“R ao Contrário”, de 2006; “Nação Daltônica”, de 2014), além dos registros ao vivo “Rachando Concreto” (2011), e o recente “Primórdios”, que trouxe um resgate do repertório inicial da banda.

Voltando ao pequeno e simpático palco do Galpão 17, um sampler de “O Guarani”, do compositor erudito Carlos Gomes, é a senha para a entrada da banda, executando, propriamente, “Voz do Brasil”. Em pouco mais de duas horas de um show estilo “olho no olho”, graças à altura e à proximidade do palco com a plateia, a Plebe desfilou por um extenso repertório, mesclando músicas dos seus primeiros trabalhos, com reverências a bandas contemporâneas como a local Escola de Escândalos, com “Luzes”; as paulistanas Cólera, em “Medo”, e Inocentes, num incidental de “Pátria Amada”; além da citação de “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, quando Phillipe interage no meio do público durante “Proteção”. Letras como “Censura” continuam incrivelmente atuais e puxam o tom político, ainda que pegando leve, afinal, o Galpão é 17.

Como o show marcava o final da turnê de “Primórdios”, nada mais natural a presença de faixas como “Tá com Nada” (feita quando João Batista de Oliveira Figueiredo ainda era presidente do Brasil, tendo como ministro da Fazenda o indefectível Delfim Neto, ambos devidamente “homenageados” na letra), “Dança do Semáforo” (primeiro hit local da Plebe, mas gravada em disco somente agora), além de um scketch humorístico estrelando André e Phillipe, antes de “Sexo & Karatê”, mostrando como uma banda iniciante evolui nas composições.

Mas nem tudo foi velharia. A banda apresentou duas faixas do próximo trabalho, intitulado “Evolução”, onde, de maneira conceitual, a Plebe conta a estória da humanidade (do ponto de vista de Darwin, claro). E falando em dinossauros, a banda mostrou um pouco do recente show com repertório especial de versões do The Who, apresentado especialmente em São Paulo. Na volta do bis, outro sampler dispara a conhecida introdução de “Baba O´Relley”, faixa de abertura de “Who’s Next”, dando início ao encore catártico, pontuado, claro, por “Até Quando Esperar”.

A promessa do dono do Galpão não tinha como dar errada. Bicas de chopp liberadas, uma banda afiada no palco e um repertório incendiário, se não se tornaram o melhor show da vida, com certeza transformaram a fria noite do Guará em inesquecível.