O EP Mais Uma Dose do Resíduo Sonoro Urbano (R.S.U), que mantém em sua formação Fábio Dogão (Guitarra e Voz), Sandro Saldanha (Bateria), marca a estreia de Flávio Lopes(Baixo), traz alguns novos e interessantes elementos na musicalidade, que vão além do Hardcore trazido no seu álbum anterior, o conceitual Peccatum Mortiferum.  Vamos a um faixa-a-faixa?

O disco começa com Políticos, um thrashcore porrada na orelha, com uma dose de breakdown no fim da canção. Embora a musicalidade seja muito boa, a letra, que traz uma mensagem de alerta sobre a compra de votos, tem alguns problemas. Embora a frase “Fodam-se todos esses políticos” tenha suas raízes históricas calcadas no movimento punk dos anos 80, ela parece trazer para o mesmo balaio todos os políticos. Mesmo que isso já tenha feito sentido em algum momento da nossa história, colocar todos os políticos num mesmo saco, quando alguns abertamente flertam com ideologia nazista é um tanto perigoso. Sabemos que a intenção da banda não foi essa, mas cabe o alerta;

Na sequência temos Opiniões, com uma letra que é bem direta, nos cobrando opiniões, num momento onde as pessoas preferem utilizar o muro como cadeira. A música vem com várias variações e cadências, e bons riffs de transposição entre as variações dos trechos. Agradável aos fãs do estilo;

Em O Próprio Vilão a letra parece uma biografia de um afortunado, que “Nasceu em Berço de Ouro/ Mesmo assim não aproveitou/Tinha todo dinheiro e trabalho/Mesmo assim se desvirtuou”, que largou a família e os amigos querendo ser quem não era, trazendo uma reflexão sobre nossas relações que construímos e destruímos quando deixamos pra trás aqueles que sempre estiveram ali. Musicalmente traz uma melodia riffada que permeia toda a música, com a cozinha fazendo seu trabalho com maestria;

A faixa que dá título ao EP – e que certamente causa pesadelos aos straight edge – é um belo resumo do modo como a nossa geração suporta os problemas cotidianos. Os amigos, o bar, uma cerveja e um bom papo, coisas essenciais, pelo menos para esse que vos escreve, para suportar o peso dos dias. O refrão vem com a voz acompanhada de um ótimo riff de baixo acompanhado pela bateria, mostrando que a banda acertou na escolha do Flávio Lopes como baixista, que manteve o padrão alto, mesmo com a saída do Pádua Belo Patim;

Abre Aspas vem carregada de muito ódio em sua letra e é um recado direto àquela pessoa ou grupo de pessoas que invariavelmente encontramos encontramos por aí. Em tom de desabafo, onde a metralhadora de palavras parece apontada para todos os lados, a música conta com dois solos brutais e igualmente raivosos do André de Sousa. Certamente a canção mais bem produzida, do álbum; 

Atitude se assemelha a O Próprio Vilão em estrutura musical, com a letra calcada basicamente em dois riffs que bebem bem nas águas do Thrash Metal e que cobra mais atitude, lembrando o quanto a vida é dura com quem é mole. 

O Mais Uma Dose é um trabalho bem feito e bem cuidado, tal qual seu anterior. Obviamente a banda desejou transmitir alguns recados e foi bem direta nas suas mensagens. Tecnicamente a banda tá coesa e entrega ao vivo o mesmo peso e destruição que demonstra em seus trabalhos de estúdio. 

*Jairo Mouzzez