Existe um ditado famoso sobre quem nasce no maravilhoso estado da Bahia: “baiano não nasce, estreia” e quem conhece este povo sabe o quanto tal ditado é pertinente. A Corona Nimbus é, na verdade, uma banda piauiense, mas quando se trata do seu primeiro álbum, homônimo, vale adaptar o ditado típico dos baianos: “A Corona não nasce, estreia”… E que estreia, caros leitores!

O duo formado pelos experientes Júlio Baros (vocal e guitarra) e Júnior Vieira (guitarra) já havia divulgado dois singles deste álbum previamente (Beyond Chaos e Path To Self) e nos dado um gostinho do que estava por vir.  Contudo, só em fevereiro de 2020, fomos, finalmente, brindados com este debut de altíssimo nível. Em estúdio, o time foi reforçado pelo talentosíssimo Arthur Moreira no baixo e, cuidando das baterias, Lucas Di Matos e Nildo Gonzales. Você talvez tenha se perguntado por que eu iniciei este texto citando a Bahia e aqui está sua resposta: o produtor do disco é Igor Guimarães, que veio direto de Juazeiro/BA, para além de produzir (pré e pós), gravar os teclados e sintetizadores e apimentar as coisas! Aliás, o trabalho de produção é sem dúvida um dos destaques do álbum, por conseguir trazer à tona um produto maduro, mesmo num álbum de estreia, e tecnicamente excelente, com uma mixagem que põe tudo em seu devido lugar e uma masterização que traz a coesão e temperatura que o álbum exigia. 

É interessante notar que a banda teve o cuidado de trazer uma proposta conceitual no seu disco, além de toda ambientação criada pelas atmosferas de cada faixa e da bela e hipnótica arte da capa, temos alguns detalhes bem simbólicos: a primeira faixa chama-se Cosmic Flow ou, em tradução livre, Fluxo Cósmico, já a última canção carrega o nome de Path to Self ou Caminho Para Si Mesmo, novamente em tradução livre, essa escolha na ordem das músicas mostra a sensação de mergulho que a banda quer passar neste trabalho, indo da imensidão do espaço ao mais íntimo momento de busca por autoconhecimento.

A escolha de Cosmic Flow para abrir o álbum foi acertadíssima, os sintetizadores na introdução da música aliados ao ritmo intercalado das batidas da guitarra e do baixo criam uma sensação convidativa de arraste a um buraco negro, é uma anunciação: a jornada vai começar e vai ser intensa! Os riffs da música são certeiros, a guitarra solo é magnífica e o baixo espetacular.

O disco, seguindo fiel a ideia de criar uma experiência única, contém três interlúdios, são eles: Abyss, Clash of Titans e Uterearth. Um mais lindo que o outro e funcionam muito bem conduzindo o ouvinte pela viagem que é ouvir o álbum inteiro que, diga-se de passagem, é o jeito certo de se ouvir: todo e seguindo a ordem!

Destacar alguma faixa deste álbum é quase como “chover no molhado”, pois todas são excelentes e merecem ser saboreadas uma a uma, mas este que vos escreve tem a missão de pôr em frias letras eletrônicas de um programa de edição de texto o que mais se aproxima do que foi a minha experiência ouvindo o disco, por isso, vou comentar algumas das canções que mais me agradaram. 

Além da faixa que abre o disco que já teci meus comentários, a faixa Beyond Chaos também merece atenção, ela conta com a presença luxuosa de Cris Botarelli (Far From Alaska) nos backing vocals e no lap steel, um instrumento de cordas tocado na horizontal que tempera a música toda com slides. O timbre tirado da guitarra é quente e crocante e junto com a pegada fenomenal do baixo mostram de forma clara a faceta stoner da banda.

Flying Lamp é a faixa instrumental do disco e é uma aula de dinâmica. Inserir canções instrumentais em discos “não-instrumentais” é uma decisão difícil pois alguns ouvintes mais apressados podem não ter a paciência para ouvir uma canção sem a melodia da voz presente nas demais, mas em Flying Lamp a Corona passou longe desse risco, cada camada da música te mantém mais atento ainda, tudo muito bem conduzido com ênfase para os teclados e sintetizadores e, de novo, para linha de baixo.

O álbum tem seu momento mais calmo na canção The Fallen, a música tem um refrão lindo que inclui um dos momentos, na minha opinião, mais marcantes e reflexivos do álbum em que a letra diz: “we are better than ourselves of the past those we left behind”. Façam suas reflexões. Aqui cabe um adendo, quem acompanha o trabalho do Júlio Baros (na antiga V-Road) sabe o quanto ele tem evoluído como vocalista, contudo é neste ponto que entendo que há ainda mais espaço para crescimento, podendo esta evolução trazer, inclusive, mais elementos para as partes melódicas das composições da banda.

O disco se encerra com Path to Self de forma precisa, com riffs de guitarra bem colocados nos conduzindo para o encerramento da viagem. O gutural de Marcius Reis, figura bem conhecida no circuito da música pesada piauiense, é o enlace final. Tinha que ser single e é, com direito a clipe e tudo.

A Corona Nimbus apresentou referências diversas neste seu trabalho de estreia, com elementos de stoner, sludge, grunge e nu metal, criando uma espécie de metal alternativo bem próprio, a experiência de ouvir Corona Nimbus é única e sensacional pela identidade própria e por fazer algo bem raro nos dias de hoje: um álbum pesado e ao mesmo tempo imersivo, ambiental e envolvente. Todos os envolvidos estão de parabéns pelo resultado que mostra pro Brasil e pro mundo (por que não?) a capacidade e o talento dos músicos de rock do Piauí. Logo, para mim, além de um prazer absurdo, ouvir o debut da Corona Nimbus é também um orgulho.

*Victor Maia