Mais Perto do Que Longe (Mas Ainda Falta um Bocado) é o título de uma música do Káfila, reflete um pouco da chuvosa noite de 15/02/2020, onde dos candangos d’Os Cabeloduro pisaram pela primeira vez na nossa capital para fazer show.

Primeiramente é importante destacar a estrutura disponibilizada pelo Bueiro do Rock para shows. Backline de primeira linha, luzes, som muito bom para os padrões piauienses. Com o fim do Hangar em São Paulo, talvez o Bueiro seja a melhor casa exclusiva para eventos underground no Brasil. Com estrutura física para receber cerca de 1.500 pessoas e todos os equipamentos disponíveis, temos aqui um palco digno para receber qualquer banda. 

Com tudo armado, os aniversariantes da noite do Káfila sobem ao palco e oferecem ao público seu passeio pelos discos Coletivo e Playground. Com 26 anos de estrada e ainda muito gás, Rubens (guitarra e voz), Fernando (Baixo e Voz) e Assis Machado (bateria), trazem no som ao vivo, além de uma bateria ainda mais rápida, o entrosamento entre Fernando e Rubens, que se dividem nos vocais das músicas sem perder o punch nos seus instrumentos. BATCUM, BRICKGAME e NOVESTRUTURAS fizeram o público cantar junto com os caras. Numa pausa entre os blocos, Fernando lembra que esse show é alusivo aos 25 anos do KÁFILA e faz a transição pros três mais recentes singles lançados pela banda entre  2017 e 2018. Sinto Muito, Cheiro do Queijo e a ótima TERRAS PLANAS, BESTAS QUADRADAS encerram o show mostrando o quanto o Káfila ainda é necessário no cenário punk/HC teresinense.

Quase tão longevos como banda quanto o Káfila, o Obtus sobe ao palco e continua impressionando cada vez mais com a brutalidade do seu som. Chakal Pedreira, Otávio Neto, Eduardo Crispim e Assis Machado, que voltaram aos palcos quase 9 meses depois do seu último show, não perderam nem o pique nem a garra de fazer um show, com entrega de toda a sonoridade rápida, agressiva e muito bem executada, adicionada as letras que trazem críticas sociais a tudo de ruim que sempre esteve aí na nossa frente. GLOBANALIZAÇÃO, ARENAS URBANAS E SANGUE NO OLHO fizeram a galera pular. O gran finale, a música hino do HC Piauiense, sempre pedida pelos adeptos da banda nos shows, fora executada com maestria. Obtus deixou sua mensagem “A CARAVANA não PARA”.

 Já era dia 16 quando Os Cabeloduro sobem ao palco para desfiar seus mais de 30 anos de estrada num show de pouco mais de uma hora.  Gazu, Quirino, Ralph e Guilherme fizeram um giro sobre os seus 30 anos de carreira, trazendo seus urros de protesto, misturados com PINGA com LIMÃO e uma boa dose de bom humor. Um punk rock cru e muito direto, trazendo a acidez das suas críticas com toda a energia ainda contida na banda, mesmo depois de mais de 30 anos. Músicas como “PINGA COM LIMÃO”, “A GENTE SÓ SE FODE” e “SE MEU FÍGADO FALASSE” fez a alegria dos presentes que receberam o que quiseram: três shows de muita qualidade. O ponto alto do show fora justamente no seu encerramento, quando Kafila, Obtus e Os Cabeloduro fizeram uma JAM tocando A Barca, mostrando o prazer de confraternizar com o público e com as demais bandas a realização de um evento realmente agradável. 

Mas nem só de maravilhas vivemos essa noite. Levei alguns momentos decidindo se escreveria ou não esse parágrafo. Mas ele é necessário. Enquanto os grupos de Facebook e WhatsApp bombam como Muro das Lamentações onde a turma rocker de Teresina – PI sempre reclama do quão inanimada é nossa cidade no quesito de produção de grandes eventos, ela também mostra o quanto da boca pra fora é esse grito. Logicamente o público presente era da melhor qualidade. Mas a quantidade de pessoas presentes no evento foi ínfima, que passou longe de cobrir minimamente os custos do evento. Sempre temos as velhas desculpas do preço do ingresso, de o Bueiro ser longe, do Corso ter rolado, gerado e blablabla. Show tava na praça há pelo menos 70 dias. Ingressos começaram a ser vendidos por 15 reais e ainda dava pra parcelar. O que percebemos muitas vezes é que show parece que só é bom quando a nossa própria banda toca. “Ou eu toco ou não há relevância no evento.” Por problemas como esse, os produtores se desestimulam a fazer shows e a tal cena, que já não existe, termina por acabar com suas já parcas sementes. Como diz o Káfila em sua música que intitula esse texto, estamos MAIS PERTO DO QUE LONGE. Sabiamente eles complementaram “MAS AINDA FALTA UM BOCADO”. E Teresina demonstra o quão grande é esse bocado.

*Jairo Mouzzez

Todas as fotos por Mari Matos