O nome do baixista Sandro Sertão despontou no cenário da música piauiense à frente do trio Clínica Tobias Blues, que ganhou destaque dentro de uma emergente cena local do gênero, por volta da primeira metade dos anos 2000. Com o fim do trio, o músico, apostando firme em uma linha “retrô”, partiu para fundar o quarteto Modstock; saem de cena Robert Johnson, Willie Dixon e Muddy Waters, e entram faixas instrumentais que misturavam a porção vaudeville do The Doors, as trilhas de faroeste de Ennio Morricone, e a melodia pop lasciva de Serge Gainsbourg; elementos que, reforçando a pegada “retrô”, buscavam colocar o ouvinte dentro da cabine telefônica do Doutor Who para uma viagem no tempo.

Mas pareceu que ainda não era o suficiente. Investindo, já no final de 2019, no seu primeiro disco propriamente solo, “Airport”, Sandro Sertão além de tocar e programar, aliou seus dotes de produtor ao selo/coletivo Quarto Dimensões, do produtor e multi-instrumentista Pedro Ben, abraçando uma atmosfera lounge, que, por pouco, beirou o famigerado “easy listening”.

Fiel à proposta instrumental, “Airport” usa e abusa das camadas de teclados, apresentados aqui em diversas timbragens, o que acaba por desaguá-lo numa faixa de areia bem próxima a um eletrônico “chill out”. A exceção é feita à faixa “Disco Night in THE”, que como bem versa o título pisa fundo na pista disco, de quem sai pra um rolê em pleno sábado à noite. Por um instante, sai Butch Bacharah e entra Giorgio Moroder.

A faixa-titulo e “Epiphany” são de uma referência clara aos alemães do Kraftwerk, deixando o ouvinte em um ponto equidistante entre a ensolarada praia de Copacabana e as camadas processadas de melodia dos “man-machine” de Dusseldorf. Fechando o trabalho, “See You Maria”, com uma melodia puxada na escaleta e uma guitarra pontuante que mais parecem saídos do repertório do post-rock mafrense Wake Up, Killer!.

A popularização das novas tecnologias, principalmente via app, e a democratização ao acesso a essas tecnologias e equipamentos, torna, a cada dia que passa, mais acessível a artistas como Sandro Sertão darem vazão à sua criatividade, bem como à sua produção, visto que os músicos cada vez mais tomam para si a responsabilidade de “subir” e gerir seus próprios trabalhos via plataformas digitais, o que acaba por tornar Sandro Sertão e seu “Airport” um farol (de led) no meio de uma noite nebulosa.