Em 2018, o Spotify lançou uma playlist com o nome Bedroom pop, que basicamente reunia uma miríade de artistas com alguma coisa em comum, sonoramente e esteticamente falando, e assim ficou criado o termo que ia designar o som de uma geração de pessoas (até então) desencaixadas e que produziam músicas despretensiosas em seus quartos.

Quando penso em Bedroom pop imagino imediatamente o Mac DeMarco em seu homestudio, sorrindo com uma janela entre os dentes, a Clairo, que ilustra a capa dessa edição do #Minerando, cantando e interpretando para a câmara em Pretty Girl, a banda Still Woozy e a tela nada comercial de seu frontman, ou o Gus Dapperton com suas roupas extravagantes. Mas, musicalmente, apesar de que para um leigo no universo do subpop todos eles realmente possam soar bem parecido, na minha opinião existem poucos elementos convergentes nos artistas que integram a conhecida playlist do Spotify. Há o elemento lo-fi, alguma coisa do dreampop no vocal, um temperinho, em alguns casos, de neo-soul ou até mesmo de jazz nos arranjos de teclado e guitarra… Para além disso, não consigo identificar o suposto ingrediente que funcionaria como elo para jogar essa galera em um só movimento, inclusive porque música independente e produzida DIY não é novidade dessa década.

Foi aí que pesquisando me deparei com um vídeo no YouTube, do canal Minuto Indie, “O que é Bedroom pop”, que, ao meu ver, matou a charada. O autor diz o seguinte:

“O Spotify, malandramente, percebeu que rolava uma tendência na internet e resolveu fazer uma curadoria e uma playlist. Por mais que tivessem diferentes sonoridades, eles [os artistas] possuíam um traço em comum, como por exemplo a sua forma caseira, em suas músicas, seu tom confessional, que levava a uma intimidade com quem faz a parada, e também a aversão ao pop. [Diferente do lo-fi hip hop], ele não teve medo de usar a melodia pop para alcançar o mainstream, não teve muito desse protecionismo de ‘não quero que meu gênero vire modinha’, e teve o caráter bem pessoal [das letras] em destaque”.

Ou seja, a única coisa realmente única e que você vê em qualquer som do estilo é o tal “tom confessional”, já que a tal aversão ao pop das rádios e os elementos acidentais trazidos de outros subgêneros funcionam apenas como penduricalhos quando se trata de Bedroom pop, não oferecendo a ele realmente nada de novo.

Mas o que seria isso de “tom confessional”, de intimidade do artista exposta? Basicamente é falar dos sentimentos de um modo mais que direto, como não se costuma expor, sobre coisas que podem embaraçar, envergonhar ou que podem soar bobas, desesperadas. Em síntese: expressar-se de forma exageradamente teenage.

Quem nunca ficou em casa se lamentando sobre as ruínas do seu mundo, após um término, como em Fear, do Current Joys:

I never felt it when I was young / I never knew where it came from / Now I feel it like a hurricane / And it’s so hard to stop the rain / It’s so hard to stop the rain / It’s so hard to stop / Starts out gold but never stays / The neon takes my breath away / And now I feel it in my veins / But I don’t want to be afraid / I don’t want to live this way / I don’t want you to leave

[tradução livre: Nunca senti isso quando era jovem / nunca soube de onde veio / agora sinto isso como um furacão / E é tão difícil parar a chuva / É tão difícil parar a chuva / É tão difícil parar / É tão difícil parar / Começa como ouro, mas nunca dura / O néon tira o meu fôlego / E agora eu sinto isso em minhas veias / Mas não quero ter medo / Não quero viver assim / Não quero que você saia]

Nesse mesmo sentido e levando a humilhação pós-abandono realmente a sério, nada como Without you, do Strawberry Guy:

Do you really have to talk about the things / You do with him? / Do you really have to talk about it, love? / Do you really have to talk about the way / That you love him? / Do you really have to talk about your love? / Living my life without you

[tradução livre: Você realmente tem que falar sobre as coisas / que você faz com ele? / você realmente tem que falar sobre isso, amor? / você realmente tem que falar sobre o jeito / Que você o ama? / Você realmente tem que falar sobre o seu amor? / Vivendo minha vida sem você]

E, por que não, a ingenuidade de My kind of woman, do DeMarco?

You’re my, my, my, my kind of woman / My, oh my, what a girl / You’re my, my, my, my kind of woman / And I’m down on my hands and knees / Begging you please, baby / Show me your world

[tradução livre: Você é meu, meu, meu, meu tipo de mulher / Meu, oh meu, que garota / Você é meu, meu, meu, meu tipo de mulher / E eu estou de joelhos / implorando para você, por favor, baby / me mostre seu mundo]

Na minha experiência com o gênero, ouvir essas canções me leva de volta para um tempo passado recente, mas psicologicamente distante, quando morava afastado da cidade grande, longe de quase tudo. Nesses tempos, era comum se ouvir ressoando na sala:

Can’t say that I knew away from feeling you / But can you see it too? / The way the skies are turning blue / Pastures on my mind / Running, searching just to find / A thing or two that once was true / The part of you that made me new / Dream, dream, dream, dream, dream / Dream with me (Dream, Ivory, da banda Dream, Ivory)

[tradução livre: Não posso dizer que eu sabia que estava longe de sentir você / Mas você também pode ver? / A maneira como o céu está ficando azul / Pastos em minha mente / Correndo, procurando apenas para encontrar / Uma coisa ou duas que antes eram verdadeiras / A parte de você que me fez novo / Sonhe, sonhe, sonhe, sonhe, sonhe / Sonhe comigo]

Todas essas canções não me deixavam à deriva nas correntes da solidão, que pode ser perigosa, sim, bem sabemos. Compartilhava momentos e sentimento com essas personalidades distantes, de terras que eu talvez nunca vá pisar, e, sinceramente, sentia como se amigos fóssemos. Era e ainda é possível entendê-los, pegar no ar suas confissões. Não seria esse um dos maiores trunfos da música? Identificar-se? Se sim, acho que o Bedroom Pop desempenha muito bem essa função. E, por isso mesmo, você deveria dar uma chance para essa turma, que nem quer ser tão levada a séria; ela só quer ser ouvida mesmo.

How could I take myself so seriously with all these teenage feelings? (Teen feels – Pro teens)

[tradução livre: como pude me levar tão seriamente com todos esses meus sentimentos adolescentes?]

Obs.: Na playlist (disponível no Spotify e no Deezer), tentei sair do óbvio e não repetir o trabalho da equipe do Spotify. A ideia é minerar, não é mesmo?

*Yuri Cavalcante

#O Minerando é uma parceria com o Teresina Cidade Invertida, para conhecer melhor o trabalho deles acesse @theinvertida no Instagram e Twitter.

Deezer – https://www.deezer.com/playlist/7413645204?utm_source=deezer&utm_content=playlist-7413645204&utm_term=3241714364_1584835984&utm_medium=web