Pode me alegar suspeito, não vou mais além da verdade. A primeira vez que ouvi o som da Snooze fiquei embasbacado: que som é esse?!, um trio guitar band de Aracaju?! O bom som lhe causa impacto imediato. É um caso raro de banda que nasce pronta: com personalidade definida e qualidade técnica impecável.

Sem exageros, esse disco de estreia — Waking Up… Waking Down, originalmente lançado pelo selo paulista Short Records e agora reeditado pelo coletivo baiano Trinca de Selos — é um belo exemplo de como ser uma banda de rock na essência: conjunção de bons instrumentistas e de boas composições. Não é à toa que a Snooze está no rol dos grandes grupos de indie rock nacional, em especial dos feitos da geração anos 90/2000.

Há pontos preponderantes e indiscutíveis na assertiva do marco geral desse álbum: representa um momento de descoberta musical; de despretensiosa autoafirmação de uma cena e condensa todas as referências vibrantes de sons ao redor do planeta na junção de gêneros e ideias extraídas desde o punk Do It Yourself; da ambiguidade do post-punk internacional e até da simpatia melodiosa do powerpop, gerado pela sincronia da “juvenilia” mundial na criação de novos e espontâneos paradigmas artísticos desenvolvidos ao longo da história moderna do pop. Deu pra entender?

Em suma, nesse play o trio formado pelo saudoso guitarrista e vocal Daniel, pelo baixista-vocalista Fabinho e o baterista Rafael Jr, criaram na garage seu próprio “éthos” na prática do inspirando e expirando as boas referências do underground americano, inglês e brasileiro — sem cair no lugar comum das comparações, encontramos embutidos nos acordes, riffs e melodias de Pin Ups, Second Come, brincando de deus, Velvet Crush, Superchunck, Yo La Tengo, Teenage Fanclub, Ride, Swerverdriver, etc.etc. — tá tudo lá e ainda assim é o modus Snooze.

As guitarras do sereno Daniel apresenta timbres de riffs incomuns seja pelo caráter leve e ou incisivo de seus acordes, levadas e solos — vide as faixas “Bottle”, a intro folkster “Tsé Tsé”, “Mariana´s Butterflies”, a dinâmica funky em “Daniel´s Unamed Song” e na envolvente e meditativa “Cold Thoughts”.

Agora em particular, o que mais atrai na audição complexa da banda é a sua secção rítmica impecável. A sintonia entre Fabinho e Rafael é de uma dinâmica perfeita. Fazem com uma maestria ímpar do início ao fim do álbum. Os caras tocam! Quando escuto o hit icônico “My Gramophone” dá vontade de sair correndo para montar uma banda e tentar tocar baixo ou bateria. Já pensou o poder?

Ouça esse disco que vai lhe fazer bem!

*Jesuíno André