Aos mais atentos, é difícil escutar o álbum Barrow, do Cemeteries, de 2015, e não ficar surpreso em perceber que é possível encontrar beleza no sombrio, no horror.

O disco todo parece falar de uma ameaça misteriosa e assustadora que vem do mar, descrito como “ela”, que às vezes se manifesta em luzes, nas ondas de rádio ou até na maré. Pelo menos foi o que entendi. Essa “coisa” feminina vai colecionando, pouco a pouco, as suas vítimas, com destaque para a música Sodus, quando a cena de um assassinato é descrita de forma bem direta, sem as firulas poéticas do restante do álbum.

Mas apesar dos temas obscuros, o Barrow não se vale daqueles clichês de trilha sonora de terror, que exploram combinações de acordes dissonantes para criar suspense nos espectadores.  Muito pelo contrário: da mesma forma que a “coisa” da história atrai as suas vítimas ao mar, a música funciona como uma isca que nos leva ao perigo sem qualquer alarde, como o canto de uma sereia. E é aí que está a genialidade dessa obra prima.

A recente série da Netflix, “A maldição da Mansão Bly”, parece apostar no mesmo conceito, ao agregar, em uma história de terror, assuntos mais sensíveis e até mesmo momentos bem comoventes. (Sei que muita gente chorou com aquele final).

Inspirado nessa nova roupagem do horror, venho neste espaço propor dois pequenos experimentos:

O primeiro é uma playlist de Halloween com músicas que, apesar das temáticas sombrias, possa proporcionar outros sentimentos positivos, de modo a não deixar a mix “datada”.

O segundo experimento é a apresentação de um conto de terror escrito com pedaços das letras das músicas que compõem a playlist. Adianto logo que, para que a história fizesse algum sentido, precisei complementar com algumas passagens de autoria própria, que estarão entre [colchetes].

O resultado pode ser conferido abaixo:

DOIS ESPAÇOS VAZIOS

“Abaixo de tudo isso, somos todos esqueletos”.

A noite cantava, quando pela primeira vez eu a vi. Na primavera escura, as cores faltando, [olhei ao redor e a invoquei]: “saia e me assombre, eu sei que você me quer!”.

Ela disse:

— Venha comigo.

Suas mãos estavam frias. Má circulação, eles diriam.

— Eu a vi em um sonho. — [admiti].

— Não se preocupe. Não se preocupe tanto com isso. — [ela me confortou].

— Onde você esteve? — [perguntei].

[Ela hesitou por algum tempo antes de responder:]

— Estive trancada aqui para sempre e simplesmente não pude dizer adeus.

[Nesse momento, eu vejo a água]. Sigo para a borda e caio no chão, nado em círculos e fico à deriva para sempre. Sinto como se não conseguisse lembrar quem eu era antes. Fico a flutuar em um oceano que não posso explorar.

“Trata-se de um fantasma”.

[Concluí].

Meus pulmões estão se enchendo de água, mas eu não vou afundar no vazio. A luz se torna a escuridão, e tudo se torna nada. A grama se torna o solo e eu posso sentir os segundos correndo como uma hora.

Enquanto ela se segura em mim, eu me esqueço de respirar. Enquanto ela se segura em mim, eu não posso acreditar que os mesmos truques me enganam. Só quero ir embora. Enquanto ela me prende, eu me esqueço de me soltar.

[Ela lamentou]:

— Alguém para segurar, algo que seja real, para nunca se sentir só.

Mas como ela fingiria? Porque não havia nada lá além de dois espaços vazios.

[Grito, em desespero]:

— Se paus e pedras quebrarem meus ossos, acho que vou ficar bem. Eu não posso te fazer feliz, isso é uma perda de tempo. Você não parece tão feliz, deve estar cheia de ódio. Podemos sossegar, por favor?

— É o que eu sempre quis. — [ela volveu].

Agora cambaleando com um juramento jogado por ela, para merecer este látego de esperança, eu escalei até o topo da parede de fogo, engoli minhas emoções e abracei a queda, explorando através do silêncio da chamada da sombra.

Agora ela não está mais lá.

Como posso encontrá-la? Na água? Ela está se afogando lá? A inundação sobe para acima dos joelhos.

Ninguém a impediu.

Vejo somente alguns trapos esfarrapados soprando.

Enquanto eu tentava passar por isso, não havia nada a fazer. Fiquei com uma mancha feia… Oh senti uma tremenda dor… e não tem outro jeito!

— Você reina você em mim, pintada em minha mente. Você está se vingando, você se vingou!

[Agora ela está em mim. Está em toda parte].

*Yuri Cavalcante

#O Minerando é uma parceria com a Teresina Cidade Invertida. Para conhecer melhor o trabalho deles acesse @theinvertida no Instagram e Twitter.