Você sabe como chegou ao mundo? Não falo de quem lhe pariu, mas de quem lhe segurou ao nascer. Foi médico? Foi parteira? É com o intuito de resgatar essas memórias que o livro-reportagem “Mãos que trazem à luz” chega para levantar essas e outras questões pouco faladas sobre o nascer e sobre o ofício das parteiras.  

O livro começa com um resgate histórico sobre a caça às bruxas, que nada mais foi do que o machismo eliminando mulheres por serem detentoras de saber. Andar em grupos e ser do sexo feminino, já era motivo para ser morta. Não mudou muita coisa, infelizmente. Com o passar do tempo, o ofício de partejar deixou de ser visto com bons olhos. Aqui temos, mais uma vez, o machismo tolhendo mulheres com a prerrogativa de colocarem homens como protagonistas de tudo.

O partejar, ainda hoje, não é regulamentado e, de certa forma, deixou os lares; o parir foi levado ao ambiente estéril dos hospitais. É até contraditório falar de esterilidade diante da reprodução, a vida brotando paradoxalmente num ambiente estéril. O parir, ato que deveria ser mágico, com a mulher no centro das tomadas de decisões, escolhendo como deseja ter esse momento, na maioria dos casos, pode ser doloroso, vide a violência obstétrica que muitas sofrem.

Ainda nessa abordagem da intromissão do machismo e capitalismo no partejar, podemos constatar que até hoje essas vozes ecoam, tanto que, se reparar, verá que nos hospitais o médico, geralmente, é do sexo masculino, ficando para mulheres a função de cuidadora: a enfermeira. A impressão que permanece é que os papéis, dentro do sistema, já são determinados e o homem sempre no centro. Lógico que o inverso existe, mas em menor escala. 

Quem nos conta esses relatos é Sandy Swamy, jornalista formada pela Universidade Estadual do Piauí (campus de Picos). Ela sai desbravando a zona rural de Oeiras (primeira capital do Piauí) na garupa de uma moto, visitando os lares das parteiras que ainda se tem notícia pela região. Aos poucos, vai nos mostrando essas mulheres, que ajudaram a “pegar meninos” de muitas outras. Para elas, esses filhos que elas ajudaram a segurar são como filhos delas também, ou afilhados. Às vezes, temos a sensação de ver a poeira subindo atrás da moto enquanto Sandy sai à procura delas.

Algumas perderam as contas de quantos chegaram a segurar, não conseguem lembrar e demonstraram certa timidez ao falar. Quando perguntadas se chegaram a acompanhar mulheres em trabalho de parto no hospital, apenas uma chegou a acompanhar, de fato, no centro cirúrgico. O que se observa é que as parteiras não têm desprezo pelo papel do médico, o que já não se observa no contrário.

Entre elas, uma se destaca, ganhando um capítulo à parte: Dona Marica. De acordo com o relato do seu neto, Assis Carvalho (ex-deputado federal que faleceu em julho de 2020), Dona Marica não recusava nenhum chamado e, constantemente, era vista no “cabaré do Sisucego”, sem se importar com o falatório da época. Dona Marica estava mais preocupada em acolher as mulheres, independentemente de sua classe social ou profissão. Além de parteira, ela também era um nome forte no Barateiro, localidade que morava, no interior de Oeiras. Pelos relatos do neto, já falecido, e dos vizinhos, Dona Marica (falecida também) faz falta até hoje, pois acolhia os trabalhadores rurais das proximidades.

Reiterando o que está prefaciado, “imortalizar memórias não é tarefa fácil, mas necessária”. Esse belo trabalho de pesquisa de campo de Sandy, só nos mostra que temos muitas histórias e tradições que precisam ser contadas, resgatadas. Principalmente quando essas histórias têm como protagonistas mulheres que fizeram/fazem diferença. Sempre que alguém estiver disposto a resgatá-las, deve-se estar atento para conhecer a história.

Assim como aquelas que são mãos que trazem à luz, iluminar essas histórias é dar à luz a muitas coisas que estão apagadas, ou quase se apagando, como uma vela que estava acesa e o pavio prestes a acabar.

Dani Marques

Mãos que trazem à luz

Sandy Swamy Silva do Nascimento

Lana Krisna de Carvalho Morais (coautora)

Appris

117 págs.

Foto: Instagram da autora: @sandyswamy

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