Juro que quando peguei o livro do Ítalo Damasceno fiquei cheia de questionamentos. Afinal, o que seria esse falso francês? Um perfume? Bom… Ainda bem que eu li, tirei a minha dúvida – além de ter tido uma grata surpresa.

A obra se passa na cidade mineira fictícia de São Félix do Morro Alto, mais precisamente no ano de 1849. Temos João Manuel, o protagonista, empregado no A Brisa da Tarde – jornal responsável pelo entretenimento da população local com a publicação dos folhetins. Para quem não lembra, muitos romances foram publicados dessa forma, sendo assim lançado um capítulo por semana; assim foi, por exemplo, com Tolstói, Machado de Assis, entre outros.

Tista, proprietário do jornal, passava por alguns problemas para adquirir folhetins para publicação, tendo em vista que as obras vinham da Europa, de navio, além da necessidade de serem traduzidas. É nessa adversidade que João Manuel vê oportunidade. Talvez por trabalhar no jornal desde criança, ser o leitor dos folhetins para sua tia Cleta, ele tem, dentro de si, a vontade de escrever. Num rompante, momento de ousadia, fala a Tista que tia Cleta possui em casa um romance na versão original do famoso autor francês Patrice du Jardine que ele, João Manuel, está apto a traduzir e publicar no jornal. Tudo mentira, obviamente. A única coisa que João viu, na realidade, foi o quadro L’Embarquement pour Cythère (Os peregrinos da ilha de Cítera) na casa da tia Cleta, de Jean-Antoine Watteau, que foi a sua inspiração para escrever a obra.

O patrão, achando estranho e ainda desconfiado, faz algumas perguntas para João Manuel, com a intenção de pegá-lo em mentira, mas o funcionário se sai bem e consegue a aprovação do patrão para publicar o folhetim, que até então não tem nenhuma linha escrita. Para preservar a sua identidade, ele resolve assinar a tradução como Campos Belos e, na ânsia de escrever, João Manuel sai para casa apressado no final do expediente, passa na tia Cleta como um cometa e naquela mesma noite gasta todo seu fôlego nas primeiras 40 linhas do folhetim.

Não precisa dizer que o folhetim foi um sucesso, deixando São Félix ansiosa para saber o desenrolar da história. João Manuel usa da cidade e seus moradores, pano de fundo para sua história que até então se passa na Grécia, tem personagens com nomes franceses, detalhes que uma leitora acabou captando.

Edith das Almas, leitora assídua do folhetim “traduzido” por João Manuel, vai atrás de saber onde ele mora, pois como ela sabe ler em francês, pensa que o “tradutor” poderia deixá-la ler no original e, dessa forma, ela mataria a sua ansiedade em saber o comecinho do próximo capítulo que estava prestes a sair.

Todavia, a presença inesperada de Edith em sua casa não deixa João Manuel muito feliz, pois a mulher, muito esperta, descobre a farsa. Essa é apenas uma das muitas coisas que vão acontecendo n’O falso francês. Ficou curioso? Será que a fama de Campos Belos chega até Patrice du Jardin? Só lendo para saber.

Preciso destacar a ousadia de Ítalo Damasceno ao escrever uma novela de época; confesso que, com todo magnetismo que ela tem, senti a necessidade de um pouco mais de detalhes, descrições ou até o uso de algumas expressões do português comuns à época. Um outro ponto: por que não ambientar no Piauí? Fora isso, o livro flui de uma forma leve, gostosa, deixando-nos presos à narrativa e sedentos pelo desfecho. O autor foi muito feliz na escolha do enredo, das personagens. Ele entrega um livro redondinho, bem amarrado.

O falso francês, recentemente, ganhou uma tradução – verdadeira – para o francês. Além disso chegou ao marco de primeiro lugar de Ficção Histórica, Ação e Aventura,o que lhe rendeu lugar entre os cem mais baixados da plataforma Amazon quando foi lançado.

Ítalo Damasceno / Divulgação

Ação Social

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O livro pode ser adquirido diretamente com o autor, pelas suas redes sociais (link aqui), na Drograria São João (Rua Santa Luzia, 2758, bairro Ilhotas. Ao lado da Igreja São Raimundo Nonato) e em outras livrarias de Teresina.