Did you have a good world when you died? Enough to base a movie on?” – James Douglas Morrison, “The Movie”, em “An American Prayer”

Biografias são terrenos que nem sempre parecem atrativos ao leitor mediano. A relevância pauta o interesse pelo biografado, na maioria das vezes. Sua vida foi boa o bastante pra virar um livro, um filme, ou os dois? Fernando Conrado, vocalista e principal letrista da banda teresinense Asseclas, conseguiu em pouco menos de meio século de vida, os dois. Primeiro virou tema do documentário “Asseclas à Procura de Identidade”, de Aristides Oliveira, Adriano Lobão e Gilson Caland, que refaz os passos do homônimo primeiro disco da banda, uma tour de force pelo underground da capital teresinense dos anos 1990, de facão em punho, abrindo a picada no muque.

Aproveitando a imensa colcha de retalhos dos depoimentos para o documentário, Aristides Oliveira extraiu este livro, “Outsider – Asseclas na Cena Rock de Teresina”, que, à primeira vista, pode parecer uma tentativa de tirar leite de pedra, mas só vem a firmar a importância do biografado no contexto de sua existência, e dos seus contemporâneos. Nascido em Teresina, Fernando Conrado morou vários anos em Belo Horizonte, onde desfrutou de passe livre na cena alternativa da capital mineira, e de onde trouxe uma bagagem imensa de discos, livros e cultura pop na mudança. Decidido a plantar a semente de uma banda que transitasse por terrenos menos radicais que os do metal/punk/hardcore que encontrou na volta, fundou o Asseclas em 1991, um coquetel de garage rock sessentista, gothic rock dos 1980 e beat generation nas letras, que durou, entre idas e vindas de formação, até às vésperas de sua morte, em 2010.

Emaranhar-se em recortes de jornal, contextualizações e depoimentos (não necessariamente em alguma ordem cronológica) torna-se essencial através deste livro para resgatar a importância de nomes não só como o do Asseclas, mas de gente como Noigandres, Cidade Ur, SNI, Citoplasma & Suas Mitocôndrias Malucas, Fator RH, Grito Absurdo e tantas outras, que podem nem ter hoje um mero registro de ensaio em áudio, mas são essenciais pra traçar o retrato de uma cena cultural em um determinado espaço/tempo; e o rock piauiense agradece e merece, já que anda tão escanteado dos espaços que ocupou até bem pouco tempo atrás. Se alguém quiser o termo “resgate”, a hora de usar o martelinho pra quebrar a caixinha de emergência talvez seja agora.

*Fernando Castelo Branco

“Outsider – Asseclas na Cena Rock em Teresina”, Aristides Oliveira, 160 páginas, Ed. Cancioneiro, 2021.