Em menos de seis meses após o texto do Jesuíno André sobre o disco homônimo do Káfila, voltamos a discorrer sobre Necropolítica. Dessa vez, sob o olhar incansável do Ratos de Porão, que há 40 anos vem nos brindando com deliciosas traulitadas na orelha.

Discorrer sobre a qualidade sonora do Ratos de Porão é chover no molhado. João Gordo, Jão, Juninho e Boka comandam a nau de uma das maiores referências do Crossover/Hardcore no mundo, mantendo a essência punk nas letras, que são certeiras ao apontar as mazelas brasileiras desde sempre.

O disco, recém saído do forno, carrega em si uma intertextualidade macabra com o ótimo Brasil (1989). Lá estão temas ambientais (Amazônia Nunca Mais), a administração econômica pensada pra tirar o couro da população em detrimento de parcela cada vez menor da população (Retrocesso, SOS País Falido, Plano Furado pt.2, Crianças sem Futuro), repressão e o sádico tesão pelas forças de segurança que oprimem cada vez mais e defendem a população cada vez menos (Lei do Silêncio, Farsa Nacionalista e Porcos Sanguinários). São 33 anos e essas letras ainda são atualíssimas. Vamos então ao faixa a faixa do Necropolítica, que trás novos elementos agregados ao sofrimento do povo brasileiro.

ALERTA ANTIFASCISTA – Essa música começa com sonoplastia que remete às UTI’s que lotaram e foram muitas vezes insuficientes durante a Pandemia da Covid-19. A letra é claramente direcionada ao presidente da República atual, o “especialista em matar”. Traz consigo a importância das “Fakenews em celular” para propagação de mentiras, desinformando sobre todos os assuntos e confundindo a população. É um alerta sobre o que virá, afinal, é ano de eleição e eles voltarão a atacar.

AGLOMERAÇÃO é uma paulada que resume toda a sequência de acontecimentos que se sucederam após a disseminação do Corona Vírus. A negação da ciência, a distribuição de Kit Covid, motociatas, a fome que gerou sopa de ossos, pastores envolvidos em escândalos de corrupção e o refraozinho “Jesus te Protege na Aglomeração/Sem Máscara”, que foi utilizado como um mantra que teve como consequência a morte de, até agora, 669.000 mortos (e contando, infelizmente).

PASSA PANO PRA ELITE é um tapa na orelha daqueles que resolveram defender o presidente incondicionalmente, apesar de todos os escândalos noticiados. Do tráfico de drogas internacional em avião presidencial, passando pelo enriquecimento de Paulo Guedes com o aumento do preço do dólar e o papel do Brasil na política internacional. Sarcasticamente a banda, como se batesse no ombro do ex-amiguinho manda “Você tá sem moral/Passa pano pra elite”. A gente lembra de algumas figuras e começa a gargalhar internamente, sério.

NECROPOLÍTICA é a faixa título do álbum que coloca o conceito homônimo do filósofo Achille Mbembe como tema central da canção, apontando o racismo como mecanismo de instrumentalização da morte no Brasil. Sim, amiguinhos, somos um país racista. Infelizmente, até o talo.

GUILHOTINADO EM CRISTO traz à tona como as questões religiosas no Brasil são muitas vezes direcionadas para servir à própria Necropolítica. Faz relação ao poder econômico utilizado para desinformação através de canais obscuros que espalham falsa ciência, falsa leitura histórica. Aqui o Ratos nos mostra que desinformação é suicídio à longo prazo. As guitarras do Jão aqui são excelentes.

O VIRA LATA faz alusão à famosa expressão futebolística cunhada por Nelson Rodrigues quando da derrota na final da Copa de 50. Mas o tal complexo de Vira Latas nessa música é tido como consequência de uma nação desinformada que acaba sendo “paga pau”de uma elite que tem como objetivo enriquecer em detrimento do trabalho da população que, ao invés de se revoltar, apenas “muge como gado” causando a “vergonha de ser brasileiro”.

G.D.O ou Gabinete do Ódio é um alerta sobre a fábrica de fakenews patrocinada por essa elite que se alimenta da velocidade da tecnologia para espalhar mentiras. E sim, o CABEÇÃO é sim o Carluxo kkkkk.

BOSTANÁGUA é outra canção que “homenageia” o presidente da república, reproduzindo mais um de seus carinhosos apelidos. E acredito que além da política por ele praticada, acho que a tal bolsa é a responsável pelo “mau cheiro ao seu redor”.

ENTUBADO é um metalzão que fala especificamente sobre as condições de fim de vida daqueles que tiveram suas vidas ceifadas pelo Covid 19, “entubados pelo inimigo”. É uma clara crítica à parte da classe médica que tanto prescrevia o tratamento precoce dos “kits Covid” e que acabava entubando pacientes que morriam de Covid, por confiar em medicamentos sem eficácia.

NEO NAZI GRATILUZ é aquela música que nos faz puxar pela mente aqueles nossos amigos de discurso bonitinho, de paz, de luz, mas que não perdem a oportunidade de negar a vacina, a ciência, destilando ódio e preconceito contra aqueles que tentavam se proteger com máscaras, preferindo meditação e yoga. É luz, é gratidão, mas anticiencia.

O Ratos de Porão nos mostra nesse disco a fotografia do Brasil pós-Covid. Desinformação, preconceito, excesso de religião nos problemas práticos do mundo, fakenews, escândalos de corrupção e um sem número de outros absurdos que se iniciaram em 2018 e se aventuram ainda mais depois que a Pandemia se instalou no país. João Gordo e sua trupe, mesmo sem dizer algo diretamente sobre isso, nos mostram um caminho. O caminho de fortalecer nossas redes de apoio e informação pra combater esses desmandos. Necropolítica é sim uma vista aérea dos dias atuais. Essa vista nos mostra o aumento do número de cemitérios, o afastamento de pessoas que outrora nos eram fundamentais e essa divisão, inflacionada e patrocinada pela máquina de fakenews. Sim, já nasceu clássico. E é o maior disco do Ratos, mesmo tendo apenas dois dias de nascido.