Quando o assunto é audiovisual brasileiro não tem como ignorar a força da teledramaturgia. As novelas fazem parte da cultura do nosso país, ainda que você esteja torcendo o nariz enquanto lê este trecho do meu texto. O que não dá pra negar também é a crescente qualidade dessas produções que se viram pressionadas a explorar linguagens visuais e textuais mais ousadas e atualizadas, em parte por conta da ascensão das séries e dos streamings.

A novela Pantanal, no ar atualmente na TV Globo no horário das 21h30, é um exemplo dessa evolução, principalmente se comparada a sua 1 ª versão exibida em 1990 pela extinta Rede Manchete. As locações não são mais as mesmas – olá, crimes ambientais – e muito menos os recursos de captação de imagem e de direção de atores. Os textos também precisaram de atualização, tendo em vista as mudanças sociais e as pautas urgentes da nossa década.

Divulgação

O esforço vem dando certo com a novela se tornando um imenso sucesso de crítica e de público. Qualquer usuário do Twitter pode confirmar a aparição de ao menos 10 tweets diários na sua timeline (fonte: observação empírica kk). Se você não observou é porque você é que está tuitando sobre o assunto.

E foi num desses tuítes da rede social oficial dos noveleiros que pesquei a indicação do filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, justamente por ser protagonizado por duas estrelas de Pantanal: Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa. Como eu disse no título, o filme entrega tudo: ode a arte, debate relevante, crítica social e belíssimas atuações.

Lançado em 2013, Tatuagem é um drama delicioso de assistir que conta a história de Clécio e Fininha, tendo como pano de fundo a atuação de um grupo teatral que eu chamaria de ousado (e maravilhoso) para a Recife de 1978. As temáticas das montagens da companhia de artistas não estão muito distantes do que é pauta artística hoje em dia. Talvez por isso seja tão fácil se reconhecer nas reivindicações das falas e das performances apresentadas.

Clécio, interpretado por Irandhir Santos, é um cara luminoso. Esbanja talento e lidera a trupe com coragem e sentimento. O ator nos presenteia com muita sensibilidade na tela e é lindo ver como muitas camadas de amor são apresentadas pra gente. Seja na relação carinhosa com o filho Tuca, na parceria verdadeira com Deusa e mesmo nas broncas que distribui à Paulete – artista mais destacado do grupo que vive através do ator Rodrigo Garcia.

Divulgação

Quando Fininha entra em cena, Jesuíta Barbosa jovem de tudo e muito potente, a conexão é automática. Para mim foi espantoso perceber a tensão entre os personagens sem que nenhuma palavra precisasse ter sido trocada entre eles. O entrosamento dos atores é incrível e parece mesmo que a gente tá vendo o romance de velhos amigos nossos que vivem em pé de guerra, mas se amam.

Nem tudo são flores nesse enredo. O grande lance é o conflito de realidades já que Fininha é um soldado do exército em plena ditadura militar. A questão da censura também é abordada, mas a resistência se sobressai mostrando como a expressão artística é fundamental para todos, mesmo que cause estranheza ao olhar de alguns. O que parece estranho pode se tornar familiar se a gente olhar uma segunda vez.

Aos fãs da novela que se interessarem pelo filme, um aviso. Não vá pensando que Tatuagem é só uma grande exibição de Jove e Zé Lucas em outros papéis. Existem outras narrativas adjacentes que nos conquistam e nos fazem refletir sobre diversas questões. O que se encontra nesta obra – premiadíssima inclusive – é algo que a gente nem sabia que estava procurando e que pra falar a verdade nem eu mesma sei explicar com clareza. Só assistindo para entender.

Corre lá e depois me conta no instagram o que achou. Tá disponível na Netflix, no Youtube, no Google Play Filmes e TV e na Apple TV.