Ainda em 2021, fui atravessada pela escrita da Monique Malcher, meses antes dela ganhar o Prêmio Jabuti na categoria contos. E que leitura! Lançado pela Editora Jandaíra, o livro conta com orelha de Jarid Arraes e prefácio de Paloma Franca Amorim.

Foto: Arquivo Pessoal

O nome da obra já é algo que chamou bastante a minha atenção: Flor de Gume. Esperava a delicadeza de uma flor, mas paradoxalmente, a flor de Monique é de gume, cortante. Jarid Arraes, autora premiada, afirma na orelha do livro: “Flor de Gume é um livro escrito para peles cortadas”. Assim, já nos prepara para o que nos espera.

Foto: Divulgação

Monique nos apresenta vivências de mulheres nortistas, vivências que navegam no fluxo contínuo dos rios caudalosos dessa região – a propósito, a autora é de Santarém, interior do Pará. São 37 contos, narrativas que podem se cruzar, ou não, mas que carregam a força da prosa poética da autora, que não à toa ganhou um Jabuti pela obra. Monique me fez questionar, durante sua leitura, se somos mesmo obrigadas a aguentar tudo; se, ao nascermos mulheres, somos obrigadas a ser muralhas. Será uma condição intrínseca?


“No igarapé, ela chorava pra produzir a água que banhava a mim e tantas meninas que não sabiam até quando era essa coisa toda de viver, qual era o tempo que a dor aguentava?”

Pág. 24

Na atmosfera úmida do Norte brasileiro, a autora fala das muitas violências sofridas por três gerações de mulheres, mas também fala do renascimento que há quando decidimos nos amar, nos permitir amar. Monique nos mostra que, apesar de deixarmos um pouco de nossas peles nos gumes da vida, é possível crescer, apesar da/com as cicatrizes deixadas. Apesar da violência doméstica, do abuso sexual, da vergonha do “sangue que brota das pernas”, Monique Malcher enterra essas dores, porque enterrar é plantar, e plantar é dar a chance para que se brote vida nova.

Além da escrita premiada, Monique Malcher assina as colagens presentes na edição, pois também é artista plástica. Um primor!

Foto: Divulgação

Sobre a autora:

Monique Malcher é escritora e artista plástica nascida em Santarém, interior do Pará, mas viveu grande parte da vida em Belém. É também uma das coordenadoras do Clube de Escritoras Paraenses, mestre em antropologia (UFPA) e doutoranda interdisciplinar em ciências humanas (UFSC) pesquisando literatura e quadrinhos produzidos por mulheres.

(Fonte: Editora Jandaíra).

Plus:

Monique Malcher criou uma playlist exclusiva pro livro. Solta o som!