Achei incrível ter passado a semana toda pensando em como seria a minha vida se tivesse tido a chance de fazer outras escolhas e essa ser uma das primeiras reflexões de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” (2022). Pareceu aqueles casos que a gente jura que o compositor fez a letra da canção inspirado numa história nossa, mesmo sem nos conhecer.

O filme americano estreou no circuito nacional semana passada, mas é muito diferente do que a gente vê por aí, vindo de Hollywood. Nunca tinha visto o multiverso ser abordado dessa forma tão explosiva e ao mesmo tempo tão sensível.

As coisas acontecem muito rápido e os atos são muito bem divididinhos, inclusive utilizando o recurso da legenda para isso. O primeiro é Everything (Tudo) e contextualiza que tipo de narrativa o roteiro vai contar. A gente já fica na expectativa de mergulhar numa atmosfera de super heroi – super heroína no caso – e até acontece o mergulho, mas sem afundar tanto. Nem dá tempo de se frustrar porque quem tá assistindo se sente atravessando as janelas dos multiversos junto com a protagonista Evelyn Wang. Já falei que tudo é bem rápido?

Michelle Yeoh na pele de Evelyn Wang

A velocidade é tanta que as duas horas de exibição se vão num piscar de olhos. Isso se você conseguir piscar. Cada vez que seu olhar pensar em se desviar da tela corre o risco de perder um grande evento. Tudo é muito grandioso. No segundo ato Everywere (Em todo lugar) a exposição ao conceito de multiverso é representada de forma bastante rica. Muito jogo de luz e sombra, muita variação de câmera, muito figurino, muita referência de outras obras cinematográficas e da cultura pop, em geral. As cenas chegam a sufocar de tão bem trabalhadas, montadas e repletas de frames. Fico imaginando essa edição frenética, como deve ter sido o processo pra chegar nesse resultado final. Claro, toda a equipe técnica fez um trabalho magnífico para isso.

O roteiro é o que mais me salta os olhos e posso dizer que me impressionou os caras (Daniel Kwan e Daniel Scheinert que também assinam a direção) conseguirem juntar metalinguagem, intertextualidade e metáfora de uma vez só, sem ficar exagerado. Posso até estar escrevendo besteira, mas foi exatamente assim que saí do cinema: impactada com tanta variedade de conversas/reflexões que o filme me despertou.

A metalinguagem belíssima na tela: a atriz interpreta uma personagem que também é atriz (em uma de suas realidades)

No fim, o ato All at once (ao mesmo tempo) traz uma mensagem que é simples e universal. E justamente por isso penso que deixou as poucas criaturas da sala de cinema sem expressar palavra. Eu mesma segurei uma lágrima ou duas, talvez as outras pessoas estivessem fazendo mesmo. O mais legal dessa divisão bem marcada em atos, neste caso específico, foi observar as diferentes reações na plateia.

No início, era muita vibração e espanto com as cenas de ação super bem coreografadas e captadas; depois veio a risada com alguns momentos nonsense que até me incomodaram um pouco, mas não a ponto de desgostar do todo; e nessa última parte do filme veio o silêncio. Aquele calar de vozes de quem realmente não sabe o que dizer, apenas sentir. Foi algo bem notável para mim. Até os aplausos que eu tava esperando ao subir dos créditos não vieram. Acredito que um estado geral de “caralho, que viagem doida” tomou conta de todos.

Vale muito pena investir duas horinhas suas assistindo o filme. Em algum momento você pode ter a impressão de como aquela peça de ficção científica e fantasia parece um pouco real demais, mas é assim mesmo. A maior beleza de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” talvez seja essa: a linha tênue que o aproxima da realidade. E sim, a gente é tão frágil quanto se sente enquanto se vê de frente para aquele universo ficcional.

p.s: todas as imagens do post são de divulgação.