Sempre é bom escrever sobre o Surra nesse nosso espaço. A banda, que já se apresentou em Teresina três vezes, incluindo a última, que foi em virtude do aniversário do nosso blog, já é de casa. Léo Mesquita (Guitarra e Voz), Guilherme Elias (baixo) e Victor Miranda (bateria), acabaram de fechar a Trilogia dos Culpados, que contou com os ótimos EP’s “Somos Todos Culpados” e “Ainda Somos Culpados” . “Seremos Sempre Culpados” fecha a trilogia com maestria.

O EP começa com “Mísseis Democráticos”, numa sonoridade que se apresenta até incomum no começo da música pra porradaria com que o Surra nos acostumou. Uma linha de guitarra sombria e a cozinha mais cadenciada, no começo da música. A letra trata de como a cultura de massa norte-americana nos mostra os “feitos em nome da democracia” contando, por meio dos seus filmes de guerra, a perspectiva do vencedor, que devasta populações ao redor do mundo com seus “Mísseis Democráticos”, ignorando o lado do vencido. Do meio pro fim da canção, temos a retomada do thrashpunk e a participação de Nika, da banda Pakt, da Eslovênia.

“Seremos Sempre Culpados” nos remete a reflexão da condição humana perante a um sistema que tende a massificar as pessoas, tirando nossa individualidade. A faixa começa com uma metáfora, comparando o autor-ator com o lixo na calçada. É uma questão existencial profunda, típica da modernidade, onde as redes sociais acabam “exigindo” um padrão “instagramavel”, de sorriso fácil e exibição de um padrão pré-estabelecido. É um tipo de organização social? Sim, mas no fundo, tudo meio sem sentido, pois nos cobram padrões estéticos e de costumes, nunca de empatia ou melhoria das condições de vida do povo. No fim, um urro exige “Me devolve o meu olhar distante/ E os meus contornos que eu maquiei/ Não tem mais nada pra eu esconder/Vida Curta e Morte Solitária”

“Joga no Meio da Rua” é um tapa na cara no que o Brasil se verteu, especialmente após a exibição e massificação do filme Tropa de Elite, que praticamente tornou a figura policial como heróica no nosso país. Esse excesso de poder, somado a toda sorte de desigualdades pelas quais passamos, é refletido na letra “O som da sirene já me dá o gatilho/(…)/Vou entrar na favela e puxar o gatilho/(…)Vou matar/Joga no meio da rua”. Aqui na letra vemos referências a dois brasis: de um lado, as favelas com índices de mortes comparáveis às da Faixa de Gaza, de outro, embora não explícito nas letras, temos crimes nas zonas nobres das cidades brasileiras e vemos posicionamentos diferentes do aparato estatal da polícia e abordagens muito mais amenas. E o título da faixa mostra como as vidas faveladas são tratadas como vidas de menor valor. Morreu? Joga no meio da rua.

“A Vida Cobra” fecha o disco com um alerta. Vivemos em risco iminente de ruptura da ordem social em que vivemos. E não, ela não é perfeita. Mas há uma tentativa de implementação clara de um sistema ainda mais autoritário. E o Surra nos convoca à organização popular, não esperando que a sorte seja o fator preponderante pra que o pior não ocorra. “O inimigo tá ali, mais forte do que nunca/ Será que precisamos contar com boa sorte?”

A qualidade sonora desse EP é inquestionável. A banda veio trazendo seu thrashpunk com muita competência. Mas trouxe também, especialmente nas duas primeiras músicas, um clima mais sombrio, muito atrelado às letras, que vem numa espécie de apocalipse. Claramente existem conexões com os outros “Culpados” da banda. Em “Somos todos Culpados”, Xquema e Xerifão traçam o perfil do aparelho armado do Estado, que desemboca aqui em “Joga no Meio da Rua” e “A Vida Cobra”. Em “Ainda Somos Culpados”, tivemos nossa responsabilidade escancarada em “Parabéns aos Envolvidos”, “Arquitetos da Desgraça” e “O Peso da Responsabilidade”, exibindo a nossa culpa em escolher o lado que a mídia no empurra, sem buscar entender os fatos com criticidade. “Sempre Seremos Culpados”, como um todo, fecha o ciclo mostrando que o golpe está pronto e em curso. E que “Sempre Serenos Culpados” caso o desfecho seja o que o inimigo espera.