O quarteto de Vila Velha trouxe nesse mês de agosto o Boiada Suicida, após quatro anos do lançamento do último álbum. O álbum Boiada Suicida, produzido pelo renomado Rafael Ramos da Deck Discos, trouxe também a sua visão dos quatro últimos anos pelo qual passa nosso país. É importante ressaltar que os punks sempre tiveram motivos pra gritar e protestar aqui no Brasil. Mas convenhamos que esse governo atual é um prato cheio. E o Mukeka di Rato também nos presenteia com sua visão do caos. E do jeito peculiar que só eles fazem, colocando doses cavalares de humor no seu protesto. São 16 faixas em pouco mais de 25 minutos. O Noise Land destrincha pra você.

O disco começa com Luzia, fazendo clara alusão ao incêndio ao Museu Nacional do Brasil, que também afetou Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil. Aqui há um combo com tudo de ruim que se instalou no Brasil pós golpe: desinformação, fake news, cortes de verbas na educação e Covid.

“Coração Sapato” traz em sua letra a opressão pela qual passamos todos os dias. Seja de imposições sociais ou dos nossos próprios demônios. O disco segue com “Humano Fracasso”, pedindo a cabeça do “homem de bem” pra jogar bola no asfalto. Afinal, são eles os “agentes do caos” que colocaram os brasileiros na fila do osso. Logo depois, vem Facada. 15 segundos com o lamento mais gritado nos últimos quatro anos kkk

Nuvem é a quinta faixa do álbum, que com uma pegada Punk Reggae traz a visão paranóica de mundo dos tais homens de bem. “Milico”vem com uma pegada poética e reflexiva sobre o trabalho das polícias pelo Brasil. “Roubar” é um grito contra a incrível inflação que corroeu o poder de compra dos trabalhadores nos preços dos alimentos. Se não conseguimos comprar, “Eu vou Roubar”.

Moderna Idade vem com reflexões sobre a quantidade de informações que recebemos nesse mundo conectado. É muita coisa e as vezes não conseguimos nos aprofundar muito em nada. Em seguida, “Boiada Suicida”é uma crítica aos que seguem, bovinamente um boiadeiro, mesmo que ele seja o demônio. “Vidraça” é uma ode aos coquetéis molotov. E como quase tudo nesse disco tem destino, esse coquetel tem o seu. É a casa do patriarca da família secular.

“Fome” vem demonstrando como esse tema é central na era em que vivemos. A faixa faz um intertexto com “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos e a Cachorrinha Baleia, que hoje revira “lixo nas caçambas” das nossas cidades cada vez mais miseráveis. “Pedrada” é uma versão incrível da bela canção de Chico César. Pegada Punk, rápida e suja. O que a torna tão bela quanto a de Chico .

“Seu Cérebro está em avançado estado de decomposição” é uma letra que aborda o modo acrítico que grande parte da população decidiu terceirizar seu pensamento aos transmissores de fake news. A inanição perante essas informações coloca o cérebro pronto pra os vermes atacarem. Em seguida, “Punk Decrépito” é uma música que tem imagens. Afinal, são inúmeros os punks decrépitos, aqueles que outrora estavam nos rolês, mas que não abre mão de lamber botinha de milico. Eles não deixaram saudade por estar longe. Eu, quando lembro deles, nem choro. Fico de olho seco (kkkkk).

“Devir Fascio”, embora não seja a faixa-título do álbum, certamente é a faixa-capa do álbum. Cantada em português e italiano, fazendo alusões à proximidade com o fascismo que parte da população abraçou, ecoa a pergunta que nós fazemos há quatro anos “Quem Matou Marielle Franco?”. O disco encerra com a faixa-mantra dos últimos dois anos, “Tudo Vai Passar”. A frase good vibes a qual nós nós apegamos durante a Pandemia é só uma frase. O Mukeka di Rato aqui, explana tudo o que disse no disco, sobre fome, fakenews e miséria. E deu o caminho pra tudo realmente passar.

O quarteto formado por Fepaschoal(Vocal), Paulista(Guitarra), Fábio Mozine (Baixo) e Fábio Truci (Bateria) fez um trabalho competentíssimo. Simples, direto e claro, com a defesa dos seus ideias e deixando explícito que não precisa de “punks decrépitos” escutando seu som só pelo som. É reafirmação de posição. Escolher o lado certo da trincheira e seguir, ao lado daqueles que estão pelo certo.