Falar da Cianeto HC é uma tarefa que não é das mais fáceis. A banda, que já conta com longo tempo de estrada, nos brinda com seu quarto trabalho intitulado “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que vem na esteira dos grandes nomes, principalmente do Hardcore e do Hip Hop nacional, fazendo um disco fotografando o turbilhão do ideário protofascista pelo qual o Brasil passa.

Mas antes de expor as vísceras desse EP, é necessário falar das próprias transformações pelas quais o som da Cianeto HC passou ao longo desses mais de 10 anos de estrada. Desde o ótimo “Decair”, com o qual estrearam, que trazia elementos de punk e ska, passando pelo hardcore de “Estilhaços” e de “Sociedade das Marionetes”. “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que marca a estreia de Pedro Felipe nas guitarras, trouxe um som bem mais pesado e mais maduro, que é fruto do encaixe do novo membro com os competentíssimos Diego Felipe (Bateria) e Juliano Bode (Baixo, Produção, Parte Gráfica), que conseguiram trazer ótima musicalidade para as letras do vocalista Heitor Matos. Vale ressaltar que considero Heitor um dos melhores letrista não só do punk hardcore, mas de toda a música piauiense. E ele também mudou nesse EP, que vamos destrinchar a partir de agora.

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O “Onde os Fracos Não Têm Vez” começa com a ótima “Necropolítica”. Como os conterrâneos do Káfila e o aclamado Ratos de Porão, o tema Necropolítica veio à tona como a música inicial do álbum. Num riff de guitarra viciante, a música traz a Necropolítica numa perspectiva do aparelho repressor da Polícia no Brasil, que tende a enxergar as minorias sociais como o maior inimigo da sociedade e as oprime sem nenhum pudor de parecer segregadora.

“Glo(Banal)ização” é uma dura e forte crítica à forma como nós consumimos as informações e como as distorções dela provenientes servem pra desmobilizar, imobilizar e remobilizar, pro lado errado, as massas. Até lembra o conceito de Guerra Fria, tão bem explicitado por Pedro Leirner no seu livro O Brasil no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. Musicalmente nos presenteia com um riff direto e um reggae ska quebrando o ritmo durante do refrão.

Alphaville é uma pedrada, com uma introdução inspirada em metalzão do capiroto e um thashcore acelerado que dá vazão a uma letra que trata sobre os privilégios de uma pequena casta que se locupleta das riquezas do país nos últimos 500 anos, fugindo da realidade e se aglomerando em seus bolsões de riqueza com nome em inglês e brega.

“SOS Ciência” é um retrato do Brasil de hoje onde as evidências científicas dão lugar as teorias conspiracionistas, em nome de um líder irresponsável que não sabe distinguir a própria mão esquerda da mão direita, fazendo com que toda população fique à merce de falácias sem algum embasamento.

A faixa- título “Onde os Fracos Não Têm Vez” fala sobre a banalização da figura presidencial com as 700 mil mortes no Brasil. É um compilado das asneiras proferidas na Pandemia sobre o vírus da Covid-19, com um alerta deixado pelo Heitor no fim ” Ao alimentar mitos/Vai se habituar a lutos!”. Vale ressaltar também a música aqui que está violenta, rápida, brutal, numa ótima demonstração do entrosamento da banda.

“CPF Cancelado” traz em sua letra uma forte crítica à espetacularização da violência, com operações policiais transmitidas em tempo real, sendo empurrado goela abaixo da população que se distrai e normaliza o absurdo. Casa muito bem com a faixa Necropolitica, fazendo uma dobradinha de sentidos que tem tudo a ver. A música pra mim deixou a desejar nessa faixa. Não porque nao seja boa. É que o riff introdutório foi tão bem feito que acabou rápido demais.

“Todo Dia um 7×1 Diferente” encerra o EP com uma musicalidade muito boa, que marca essa nova fase da Cianeto HC. A letra marca a mudança dos personagens que protagonizaram a política nacional nos últimos quatro anos, onde “Estudo e Evidência” deram lugar aos cachos.

A Cianeto HC entregou tudo nesse EP. Musicalidade nova, som rápido e as ótimas letras do Heitor. Trabalho incrível que posiciona “Onde os Fracos Não Têm Vez” ao lado dos melhores álbuns do gênero no ano de 2022.