Queen & Slim (2019) foi mais um desses filmes que adiei deliberadamente assistir, já imaginando os sentimentos negativos que ia cultivar. Não sei se é uma mania exclusiva minha, mas espero um determinado estado de espírito pra poder investir meu tempo em um filme assim – que já tenha fama de dramático ou sugira isso em sua classificação. Neste caso, duas horas e doze minutos em que de fato me concentrei e parei pra ver o filme, tentando evitar ao máximo as distrações.

Por razões pessoais tenho procurado histórias que retratem pessoas negras se amando. Semana passada vi A Fotografia (2020) na Netflix com esse propósito. Para Queen & Slim fui consciente de que não veria somente isso no filme. Li a sinopse antes e sabia que tinha crime no meio.

A surpresa ficou por conta da delicadeza com a qual a diretora Melina Matsoukas e a roteirista Lena Waithe nos apresentam esse amor negro em meio às complicações da vida. Como ele tem espaço pra surgir, ainda que as próprias pessoas dificultem isso. No diálogo inicial, Slim questiona Queen o porquê da demora em responder seu interesse no Tinder. Ela diz que o dia foi horrível e não dava pra ficar tomando vinho em casa sozinha. Ou seja, esperou um pico extremo de solidão para só aí dar uma chance pro que poderia acontecer.

Slim: Can I ask you something? What took you so long to respond to me?
Queen: I didn’t realize that much time had passed.
Slim: I sent you a very well-crafted message. Three weeks have gone, and today, out of the blue, you hit me up asking if you want to grab dinner. What changed?
Queen: I had a shitty day.

Gostei muito dela justamente por ser bastante diferente de protagonistas brancas que estão constantemente buscando validação num par romântico. Em outro momento ela afirma pro Slim “sou uma advogada excelente!”. Ela é foda, independente emocionalmente e tem consciência disso. Até pela necessidade de ser sempre forte, Queen finalmente se permite um momento de fraqueza – se é que pode se chamar assim um encontro amoroso.

Slim, por outro lado, é destemido. Nas conversas está sempre puxando a parceira pro confronto. Sem se deixar intimidar com a personalidade forte dela. A todo momento a gente percebe no olhar dele – mesmo nos takes iniciais – um traço de admiração. Se isso não é a receita para um relacionamento dar certo, eu não sei mais o que é.

Slim: What if God wanted me to die and I messed up His plan?
Queen: I don’t think that’s what He wanted.
Slim: How do you know?
Queen: I just think you were meant to be here.

Nossa, mas o que tinha demais nesse filme pra ser evitado, então? Acredito que a essa altura do texto você esteja se perguntando. E eu respondo: o plano de fundo. Doi demais ver o racismo vencendo ali na cara dura. Principalmente por ter conhecimento de que a coisa rola exatamente daquele jeito fora das telas. Doi imaginar que o desfecho poderia ser outro todos os dias – não só no filme – se tivéssemos outra estrutura social. Na última cena eu só conseguia pensar: QUE ÓDIO QUE ÓDIO QUE ÓDIO QUE ÓDIO. Achei até que esse texto seria apenas essa exclamação.

Mas, não. É preciso recomendar que assistam. No final me dei conta que os nomes deles não foram pronunciados durante o filme todo, exceto minutos antes do desfecho. Achei uma válida alegoria pra demonstrar como as pessoas negras são desumanizadas etratadas como meros números pelo sistema. Pra essa estrutura não importou nada do que viveram e construíram naquela história. Suas vidas só seriam úteis se continuassem perpetuando as narrativas dominantes e nelas o final feliz é dos brancos mesmo. Como diria Emicida “a felicidade do preto é quase”.