Apenas M. Mistério, Milagre, Menina, Mãe são palavras que começam com M, a mesma consoante que nomeia a protagonista deste livro, nascida em um lugar onde um véu cobre a palavra Morte. Quase ninguém menciona. Quase ninguém quer lidar com o sentimento de impotência diante de algo inevitável. Viver a Morte é tocar o Mistério com a ponta dos dedos. Fere e queima.

Por que viver, então, se há um desfecho desesperador à nossa espera? É uma pergunta de M que, depois de lida, nos invade. A Morte é minha, ela diz. A Morte também é minha, o leitor responde.

A literatura universal já atravessou o tema da finitude da vida por inúmeros percursos. A Ceifadora das Gentes já narrou livros, já decidiu suspender seu trabalho no romance primoroso de José Saramago, mas nada nos prepara ou consola. Somos a criança M diante do luto.

Na falha de eternidade, antecipamos o que nela nos espera é uma das frases mais bonitas deste livro de Rute Simões Ribeiro, que lista os momentos de M com breves didascálias, constrói um narrador pleno de poesia, cuidadoso, que olha nos olhos, adverte, prepara, mas no fundo sabe que há em nós um projeto de lágrimas na travessia.

A Morte existe, mas estamos vivos. Depois de encerrarmos nosso convívio com M, a menina eterna, paira uma pergunta: o que pensa fazer nas vidas que lhe hão de vir? A certeza da Morte é, sobretudo, a confirmação diária do quanto precisamos cuidar da Vida que pulsa hoje. Agora. Este romance é sobre a compreensão da Vida.

Texto escrito por Socorro Acioli para a edição brasileira

Rute Simões Ribeiro. Foto: Facebook da autora

Sobre a autora: 

Rute Simões Ribeiro nasceu em Coimbra. É licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra. Em 2015, foi finalista do Prêmio Leya. Atualmente, mora em Lisboa.

Clique aqui para comprar.